segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O homem que morreu cabaço

Zé nasceu de parto normal, sem complicações, chorou na hora certa, mamou tranqüilo, dormia bem quando bebê. Cresceu sendo um bom menino, nunca brigou, sempre teve boas notas, era um garoto obediente e muito querido por todos. Um dos melhores na catequese, ia à missa todo domingo sem reclamar e rezava alto, bonito de se ver.

Na escola então era um exemplo, a única vez que incomodou um professor foi quando tirou nove numa prova, pois o professor realmente tinha se enganado numa questão, que Zé respondeu corretamente. Zé também jogava bola, não era o melhor, mas era sempre titular, mas nunca fez muita festa com a galera depois das vitórias do time. E eram muitas.

Sem tempo livre, Zé ocupava seus dias com muitas coisas: inglês, informática, natação, teatro, música, religião e até como voluntário em ações sociais. Mesmo que ninguém notasse, sempre foi um exemplo a ser seguido, mas ninguém o seguia no Twitter. Aliás, ele não tinha tempo pra essas coisas de internet sem muita utilidade. Preferia passar o tempo on-line navegando na Wikipédia ou qualquer coisa educativa.

Ele cresceu e virou um belo rapaz, chamava a atenção das meninas que o olhavam sem parar. As pobres garotas nunca receberam qualquer olhada em retribuição, das poucas vezes que ele conversava com elas, era sobre assuntos das aulas ou algo parecido. Zé até que conquistou certa popularidade no colégio, pois todos queriam fazer os trabalhos em grupo com ele, ou sentar perto dele nas provas. Era a única forma de interagir com o cara exemplar.

Zé passou em medicina na federal, no primeiro vestibular que fez. Em poucos anos estava formado como o melhor da turma, embora a turma nem o conhecesse direito. Ele morava sozinho, não fazia outra coisa que não estudar e trabalhar. Aliás, ele nunca foi visto em qualquer festa da turma. No baile da formatura, dançou a valsa com sua avó e foi embora antes que a festa ficasse interessante.

Depois de se dedicar unicamente à especialização no exterior, onde gastou todas as suas economias da adolescência, Zé foi para uma cidadezinha no interior, daquelas onde nenhum médico quer se instalar. Dedicou anos a fio salvando vidas, ajudando os pobres, sendo bom e até ganhou um título de cidadão honorário. Uma pena que seu discurso tenha sido somente algo como: “obrigado, mas eu faço apenas o meu trabalho”.

Um homem sério, sem frescuras e respeitado. Ajudava muito na comunidade, era quem mais se esforçava nos preparos da Festa Anual da Boa Vontade, ele só conseguia descansar quando tudo estava pronto e o tão esperado baile começava. Aí ele ia para casa dormir.

Zé era um homem bom, sem malícia, sem vícios, sem maldade no coração, contribuiu enormemente por um mundo melhor até seus cento e cinco anos. Teve uma vida dedicada as suas lutas e conquistas, nunca fracassou em qualquer empreitada.

Zé morreu cabaço.

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